Escrever um Livro por Mónica Menezes

A insustentável dureza de se escrever um livro

Foi há mais ou menos nove anos, depois de ter feito um curso de escrita, que o formador me ligou a perguntar se eu queria escrever um livro. Eu nunca tinha escrito nenhum, claro que sonhava com isso e, quando desliguei o telefone, acho que chorei e ri ao mesmo tempo! Eu era jornalista, escrevia muito todos os dias, mas um livro, para não parecer um folheto de supermercado, tinha de ter, pelo menos, 250 mil caracteres. Quando soube isto, acho que chorei mais do que ri…

Ele já tinha a ideia para o livro: escrito para adolescentes, na linguagem deles, educativo, mas divertido ao mesmo tempo. Eu seria a espécie de irmã mais velha que dá conselhos, mas que entre dentes lhes diz “eu também já fiz esses disparates” ou “eu também já senti isso”. Foi com estas diretrizes que nasceu o “Muito à Frente – App de sobrevivência do adolescente português”. 

Já não me recordo bem, mas acho que escrevi durante dois ou três meses, todos os dias um bocadinho. Tive a sorte de ter esse formador ao meu lado, que me ia corrigindo e/ ou aplaudindo consoante a situação. Para conseguir a tal linguagem típica dos adolescentes da época – isto foi em 2011, agora já falam de forma diferente -, conversei com alguns, li muitos livros, enfim, tentei percebê-los. Na altura os meus filhos tinham seis e três anos e eu (ainda) não sabia o que era ter um adolescente em casa.

Quando chegou o dia de enviar o manuscrito para a editora, não falhei o prazo, embora tivesse vontade de pedir para ler e reler mais 53 vezes para ter a certeza que estava tudo bem. Claro que não estava! Sou humana, erro e ainda bem. A editora encontrou erros e algumas incongruências, o revisor idem aspas. Depois voltou tudo para mim e voltei a encontrar mais erros. 

Quando todos – eu, os editores, o revisor, o paginador e o designer – achámos que estava (quase) perfeito, o livro seguiu para a gráfica. Tempos depois, ligaram-me para ir vê-lo. Obviamente, não é a mesma coisa que sentir um filho no colo pela primeira vez, dado que isso é mais ou menos como tocar no céu, mas senti que, depois de meses de trabalho, bolas, aquilo era magia! Cada frase tinha sido escrita por mim, cada ideia tinha saído da minha cabeça. Se estava perfeito? Não. Mas eu consegui! 250 mil caracteres escritos, impressos e à venda pelo país todo. 

A seguir, a emoção do dia de lançamento. A família, os amigos de todos os dias e aqueles que já não via desde a infância. Os autógrafos. A alegria. A perceção que fui “estrela” por breves horas. A vida continuou. Mais uma linha no currículo, mais um motivo de orgulho. Escrever um livro é um processo difícil, longo e divertido ao mesmo tempo. É achar que se consegue e que não se consegue no mesmo minuto. É escrever muito e reescrever ainda mais. É pesquisar bastante. É ouvir críticas, receber palmadinhas nas costas e alguns elogios. É olhar para ele com um amor enorme e depois pensar como se escreveu aquela frase tão parva. É gostar tanto da experiência que se quer viver tudo outra vez e outra vez e, quem sabe, talvez mais uma vez!

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